Silvio é o Silvio, e isso basta

Eliana Maria Lemos (Correio9)


Recentemente a cantora Gaby Amarantos atraiu a atenção da mídia e a ira de muitos brasileiros ao detonar, em suas redes sociais, o apresentador Silvio Santos por seus comentários preconceituosos contra gays, gordos e negros. Para ela, o dono do SBT humilha as pessoas com suas “brincadeiras”. Diante da polêmica, o homem do Baú, ao contrário do que muitos esperavam, deu ordens para que as portas do seu canal de televisão continuem abertas para a paraense, o que fez aumentar ainda mais a admiração de seus seguidores.

Não é de hoje que SS passa das medidas politicamente corretas. Nas últimas décadas o mundo passou por inúmeras transformações em todos os aspectos e os meios de comunicação se adaptaram às novas condutas éticas e politicamente corretas. Figurões de Hollywood estão perdendo contratos milionários e tendo que dar explicação à justiça por acusação de assédio sexual contra colegas. No Brasil, pelo mesmo crime, o ator José Mayer está de castigo há mais de um ano na Rede Globo, que também puniu com demissão um dos seus principais jornalistas, após comentários racistas terem sido divulgados num vídeo. Enfim, todos mudaram, menos Silvio Santos.

Mais do que um empresário ou apresentador de programas de auditório, Silvio Santos é um mito. É uma religião, seguida fielmente por milhares de brasileiros que todos os domingos se postam diante da TV para acompanhar atentamente todas as bobagens que Silvio faz diante das câmeras. Acham graça de todos os comentários e estão prontos a adquirir qualquer produto que ele anuncie, mesmo que seja uma ilusão. Graças a esse carisma sem tamanho, Silvio se tornou um dos homens mais ricos do País. É dono de um conglomerado de empresas que atuam em áreas diversas, como mídia, financeira, imobiliária, cosmética e hospedagem – voltadas, em sua maioria, para o público das classes C e D.

São os brasileiros pobres com pouca instrução que consomem os principais produtos do grupo Silvio Santos; o mais antigo, é o famigerado carnê do Baú. Desde que me entendo por gente ouço falar dessa porcaria. Minha mãe comprou e pagou durante anos a mensalidade, sempre na esperança de um dia ser sorteada para participar do programa Silvio Santos, ganhar um prêmio em dinheiro e de quebra, ainda ficar famosa por alguns minutos. Morreu sem alcançar essa glória. Assim como milhares em todo o Brasil.

Quando questionada do porquê insistia naquilo, ela sempre dizia a velha frase: “com o carnê do Baú você não sai perdendo, se não for sorteada pode pegar mercadorias nas lojas”. O que ela não entendia era que o valor pago durante meses, às custas de vários sacrifícios, ficava limitado ao que a loja oferecia. Ela só podia escolher a mercadoria que tivesse disponível e pronto. Mas o que era esse argumento diante da sedução do Señor Abravanel? Nada! Diante das transformações da nossa economia, respirei aliviada há alguns anos quando o tal carnê foi tirado de circulação. Achei que, finalmente, o negócio tinha dado para trás. Enganei-me. Em 2015 o grupo Silvio Santos relançou o carnê do Baú numa versão piorada. Agora, em vez de eletrodomésticos, as mensalidades são trocadas por produtos da Jequiti Cosméticos, outra empresa do apresentador.

Na verdade, todos os negócios do grupo Silvio Santos são interligados, e nem poderia ser diferente, convenhamos, mas o grande pecado é que tudo é um exagero. Uma boa parte da programação do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) é voltada exclusivamente para as vendas de produtos Jequiti, Telesena e Carnê do Baú. É uma lavagem cerebral que funciona há várias décadas. Tenho uma tia que compra tudo que pode, desde que seja anunciado pelo Silvio Santos.

Ela não sai de casa no domingo sem ver o sorteio da Telesena. Tem mais de um mês que ela está esperando receber a tal caixa com os produtos da Jequiti, do resgate do Carnê do Baú. Toda vez que ela liga, dão uma desculpa e pedem um novo prazo para a entrega.
Diante da enrolação, disse pra ela falar que ia ao Procon, minha tia me olhou como se eu estivesse blasfemando, e continuou falando com o atendente: “se eu não receber minha caixa vou reclamar pro Silvio” – ameaçou como se tivesse toda a intimidade com o apresentador e ele realmente se importasse com ela. Pobre coitada! A grande verdade é que o dono do SBT é um grande homem de negócios que usa suas habilidades de comunicador para ludibriar a boa-fé dos mais simplórios. Pessoas como a minha mãe e minha tia que estão pouco se importando se ele é inconveniente, racista e homofóbico. Se ele ridiculariza uma menina por causa de seu cabelo, isso faz parte do show, afinal, Silvio é o Silvio, e isso basta!

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