Editorial: Armados até os dentes

Vixi! Misericórdia! Será que isto é verdade!? Só Jesus na causa! Estas foram algumas das reações dos leitores à publicação da reportagem “Armados até os dentes, jovens caminham pelo Bairro Rúbia, em Nova Venécia”, veiculada no site (correio9.com.br) e na edição impressa desta quarta-feira, 18.
A reportagem é, de longe, a publicação – do Correio9 – mais lida e comentada, pelos leitores, neste ano de 2018.

 

Há muitos anos, quando ficávamos sabendo que alguém havia sido assassinado de forma brutal, ficávamos entristecidos, indignados por tamanha maldade.

 

Tempos se passaram, e, nós, como que sentados em alguma praça, vemos nossos vizinhos, amigos, parentes, seres amados de nossas vidas, razão de nossas existências, serem eliminados, exterminados. Parecemos inseto, sem direitos, sem defesas.

 

Trabalhadores, adolescentes, crianças e, nós lá sentados no banco, hora chorando por um, hora chorando por outro e outro… Parece que estamos hipnotizados pelo medo, desequilibrados pela omissão, doentes pelo estresse e pânico, depressivos por nossa impotência diante de tanta impunidade pelo extermínio de nossa gente!

 

Mães e pais perdem noites de sono, seus trabalhos, desorientam suas vidas, na tentativa de salvarem seus filhos, cooptados pelo crime.

 

Mas, nem sempre foi assim. Nova Venécia já foi uma cidade pacata, de juventude idealista e sonhadora. Porém, com o passar do tempo, “coisas” que não faziam parte do cotidiano dos venecianos começaram a brotar, foram crescendo, crescendo e crescendo.

 

Há aproximadamente 20 anos, para os venecianos, o assunto ‘drogas’ não passava de notícias da TV. Hoje, elas estão por toda a parte, ‘embaixo do nariz’ das autoridades, dos pais e professores. Como algo tão sério cresce desta forma, sem que ninguém se dê conta do perigo, ainda em formação?

 

Uma das respostas tem origem na, falida, política de segurança pública. O Brasil vem seguindo uma linha de conduta com uso exacerbado do Direito Penal como medida de controle social, sem a compreensão de como são inócuas as proibições incapazes de surtir um mínimo efeito intimidatório na sociedade, como são os casos dos crimes de aborto, concubinato, mendicância, fuga de presos e do mercado de drogas.

 

O resultado é a efetivação de uma política repressiva cara e ineficiente que prioriza o combate aos “microtraficantes” e não afeta o mercado bilionário das drogas. Com isso, o Brasil se tornou um dos países que mais prendem pessoas, ao mesmo tempo em que o consumo de entorpecentes só aumenta.

 

A dificuldade de atuação da administração pública e do sistema de Justiça decorre do fato de que, atualmente, os indicadores de sucesso da política de drogas são basicamente repressivos: quantidade de droga apreendida, número de pessoas presas por tráfico, e, assim, sucessivamente.

 

É preciso desenvolver novas formas de avaliar essa política pública, criar indicadores focados na saúde e no bem-estar da população.

 

Com isso, ficará mais fácil para o Judiciário e para o Ministério Público se conscientizarem de que o padrão atual reforça o problema em vez de resolvê-lo.

 

Precisamos dar segurança para que o sistema de Justiça mude sua forma de atuação, sabendo que o resultado dessa mudança será positivo para a sociedade.

 

Além disso, devido à falta de assistência social pelo Estado, os habitantes de comunidades se tornam alvos fáceis dos chefes do tráfico, fortalecendo a ação do tráfico no local.

 

Desse modo, quais alternativas são oferecidas – pelo Estado – aos jovens inseridos no tráfico? O que o Estado lhes oferece em troca? Onde estão as políticas educacionais, de esporte e lazer?

 

Já há algum tempo, Nova Venécia vem chocando o “ovo da serpente” – metáfora usada para explicar o surgimento de práticas nocivas à sociedade – e os filhotes estão nascendo.
Sonhamos com a volta daquela Nova Venécia de 20 anos atrás. No entanto, até lá, não nos enganemos, continuaremos presenciando barbaridades e retrocessos – ainda estamos longe do fundo do poço. Mesmo assim, é imperativo resistir desde já, todos os dias, religiosamente, combatendo sem tréguas, porque nenhuma das 30 facções que desafiam o Estado brasileiro, nos dias atuais, nasceu de um dia para o outro.

 

O momento é grave e se as instituições – o Ministério Público, a Polícia Civil, a Polícia Militar, a Secretaria de Segurança Pública, o Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM) e a Prefeitura – não se posicionarem – firmemente agora – no futuro, serão questionadas se não leram a reportagem divulgada no Correio9 do dia 18 de julho de 2018.
E, esse futuro, parece estar bem próximo!

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