Sua tatuagem passa o dia sendo engolida – e regurgitada – por macrófagos

 

Por Bruno Vaiano

O seu sistema imunológico é uma polícia corporal eficiente, formada por células com várias funções. As que põem a mão na massa – a tropa de choque – se chamam macrófagos e lembram muito o Pac Man: são razoavelmente redondas, e sua função é engolir e digerir sem dó substâncias estranhas que encontram no corpo.

 

Quando você faz uma tatuagem, os macrófagos ficam malucos. Afinal, na escala humana, a tinta que é injetada sob a pele pode até parecer uma substância líquida. Mas, do ponto de vista de uma célula de defesa microscópica, ela é formada por partículas muito grandes. Que são interpretadas como uma ameaça, mesmo que na prática não sejam.

 

Com a melhor das intenções, o macrófago avança na primeira partícula que encontrar e tenta engolir a dita cuja. Mas a fome é maior que a boca. O macrófago é incapaz de quebrar a partícula de tinta, e o pigmento fica alojado em seu interior. Como ele é transparente, isso não faz diferença nenhuma para a maneira como vemos o desenho do lado de fora. Esse processo acontece milhares de vezes. De fato, se você tem uma tatuagem, boa parte dela está dentro de macrófagos neste exato momento.

 

O fenômeno acima já é conhecido há algum tempo. Mas cientistas e médicos pensavam que os macrófagos passavam longos períodos com o pedaço de tinta que haviam engolido em seu interior – uma estabilidade que ajudaria a explicar porque as tatuagens são tão duradouras. Agora, imunologistas da Universidade de Aix-Marselha, na França, descobriram que na verdade os macrófagos que engolem tinta morrem em questão de semanas. E logo são substituídos por outros, que englobam novamente as partículas liberadas pelos mortos e recomeçam o ciclo. “As partículas de pigmento da tatuagem podem ser submetidas a ciclos sucessivos de captura, liberação e recaptura sem o desenho desbotar”, afirma o artigo científico.

 

A descoberta tem uma finalidade prática importantíssima para os arrependidos: é provável que os macrófagos mais atrapalhem do que ajudam na hora de remover uma tatuagem, já que eles podem engolir os pedaços de pigmento que são quebrados pelo laser antes que eles se dissipem. Baseados nessa teoria, profissionais especializados na remoção de tatuagens agora podem testar táticas novas – como usar anti-inflamatórios para suprimir a ação do sistema imunológico. Por outro lado, há quem especule que as células comilonas ajudem na remoção, já que talvez sejam capazes de digerir os pedaços de tinta depois que eles são picados pelo laser. Só há um jeito de descobrir quem está certo: mais experimentos.

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