Edivaldo Alves, locutor

O RADIALISTA nos estúdios da Rádio Cidade, que entrará no ar em breve em Nova Venécia.

 

Na entrevista especial desta edição, o Correio9 ouviu Edivaldo Alves, locutor, que entre muitas investidas protagonizou a locução, há 30 anos (outubro de 1987) que inaugurou de forma oficial os pick-ups da Rádio Nova Onda FM, de Nova Venécia. Na conversa, Edivaldo falou de sua infância, sua carreira e o atual momento da música nacional e internacional. Confira:

 

CORREIO9 – Como começou seu gosto pela profissão que exerce hoje?
EDIVALDO ALVES – Quando era adolescente, gostava muito de eletrônica e estudava os livros de um primo que era meio louco, mas muito inteligente nesta área. Coincidentemente este primo morou uns tempos em Nova Venécia antes de eu sair de Linhares. Posteriormente, ele enlouqueceu de vez e acabou internado num manicômio.
Eu sempre fui muito curioso e vivia “fuçando” aparelhos eletrônicos. Na escola, eu sempre era chamado para cuidar do som e resolver os problemas do equipamento. Certa vez, cheguei até a montar um minitransmissor de FM com a ajuda do meu primo. Naquela época, isto era algo fantástico e as pessoas ficavam impressionadas. Aos domingos eu ligava a “saboneteira” e fazia até transmissão de futebol no meu bairro. A audiência era boa, pois nem existia rádio FM ainda em Linhares, apenas a rádio Cultura AM. Meu sonho era ser apenas um operador de áudio da rádio.

 
C9 – E de lá pra cá você não parou mais?
EA – Sim. Um tempo depois entrou no ar a Rádio Cultura FM – 98,7Mhz. Para quem estava acostumado a ouvir rádio AM e as rádios FM de Vitória – que chegavam com muito chiado em Linhares, o som estéreo da FM local era algo maravilhoso. Foi quando ouvi no rádio que estavam fazendo testes para novos locutores, pois em breve estariam inaugurando duas novas emissoras: Rádio Jovem Barra (Barra de São Francisco) e Rádio 105 em São Mateus.
Com apenas 16 anos eu não acreditava que poderia ser locutor de rádio. Carlinhos Maciel, que morava no meu bairro e já estava trabalhando na rádio, me incentivou a fazer o teste. Lembro-me como se fosse hoje. O operador de áudio era Fernando Arrivabene também do meu bairro. As músicas do meu teste foram: Heaven (Brian Adams), Hard a Woman (Mick Jagger) e Just Another Night (Mick Jagger).
Naquela época o coordenador da Cultura era Guilherme Amorim. Quando o telefone tocou e me falaram que era da rádio, não acreditei. Eu fui um dos escolhidos para fazer estágio na FM. Ficaria toda quarta-feira, de 15 às 19 h da noite com Sergio Mendes (Serginho FM). Só o fato de poder ficar no estúdio acompanhando o locutor já me deixava com aquele frio na barriga. Colocar a música no “ponto”, ligar o Pick-Up e mandar a música pro ar – um sonho realizado. Estava no paraíso!

 

OS PRIMEIROS passos de Edivaldo como locutor, quando estudava na sétima série em Linhares.

C9 – Fez mais algum programa na Cultura?
EA – Sim. Alguns meses depois apresentei alguns programas de noite e abri a programação da rádio às 5 horas da manhã com o programa Made In Brazil. Guilherme foi embora para os Estados Unidos e Miguel Roldan assumiu a coordenação. Foi ele quem me ligou perguntando se eu poderia ir para Barra de São Francisco, pois a rádio já estava entrando no ar em caráter experimental.

 
C9 – E você aceitou?
EA – Ainda era muito jovem e achava que meus pais não permitiriam que eu fosse “embora”. Para minha surpresa e com ajuda de meu cunhado tudo deu certo. Minha irmã me emprestou a mochila, peguei um cobertor remendado e parti para Barra de São Francisco. Era como um passarinho saindo da gaiola. O lugar era longe e chovia bastante.
Cheguei a noite em Barra de São Francisco e fui recebido por Marquinhos Niterói, que eu conheci durante meu estágio na rádio. Ele morava na cidade e cuidou de mim no início.
Aos 17 anos e fora do “ninho”, tudo era novidade pra mim. Fiz bons amigos. Conheci outros colegas que vinham de Vitória também com o mesmo sonho, como o Alcimar, Luciano, Messias Viana, o Batista que era da cidade e a Sabrine que ainda era ouvinte de Mantena com aquela voz maravilhosa. Amigos que se foram, como o Zé Linguiça e o Raul Tremendão – locutores sertanejos pioneiros no FM.

 
C9 – E como você ‘aportou’ em Nova Venécia?
EA – Em 1987 eu aceitei o convite de José Renato Ferrari que era um dos sócios da emissora para compor a equipe da Nova Onda. Na época, nos comunicávamos via Telex, um tipo de máquina de escrever interligada por rede telefônica. Não tinha monitor. Os textos eram impressos em folhas de papel contínuo. As conversas podiam ser gravadas também em fitas de papel que eram perfuradas – “tecnologia de ponta”.

 
C9 – Como foram os primeiros passos da emissora, que em outubro completará 30 anos no ar?
EA – Mesmo com muitos problemas técnicos a primeira emissora de Nova Venécia finalmente entrou no ar. Após a leitura de um texto elaborado pela saudosa Marta Salvador eu veiculei oficialmente a primeira música da emissora: Careless Whispers, do George Michael. Mas o que me faz lembrar da fase experimental da Nova Onda é a música The Model (Kraftwerk). Os discos eram do Eleones Pereira, o primeiro programador da rádio.

 

ENTREVISTANDO o cantor Xororó, na inauguração do Ginásio de Esportes de Nova Venécia em 1988.

C9 – E como foi feita a escolha da equipe de locução da rádio?
EA – Naquela época só havia eu de profissional e com alguma experiência adquirida na Rádio Cultura e Jovem Barra fui escolhido para realizar testes de locução com o pessoal de Nova Venécia. Lembro-me apenas dos escolhidos: Flávio Vidoto, que hoje reside nos EUA; Toninho Bill, Malta, Juarez Frigério, e mais um casal que não me lembro o nome. Estes últimos acabaram sendo dispensados pela direção alguns dias depois que a rádio entrou no ar.

 
C9 – E como os demais se saíram?
EA – O Toninho Bill era um jovem sonhador que impressionou pela força de vontade. O Vidoto – Flavinho – era um “menino” cheio de gás e com muito gosto musical bem apurado. Juarez Frigério já era conhecido locutor da cidade com uma voz grave, ideal para o rádio AM da época. Já o Malta, quando eu abri o microfone para ele fazer o teste, ele mal começou a falar e já fui percebendo que era profissional. Foi quando ele se identificou com uma carteira de radialista profissional. Malta já havia trabalhado em rádios de Vitória.

 
C9 – E sobre os que vieram depois?
EA – Pouco tempo depois a Nova Onda ganhou novos profissionais que ajudaram no desenvolvimento da equipe. Primeiro foi o locutor Kazinho, da Rádio Tropical de Vitória. Ele era líder de audiência na capital e fazia o mesmo horário que eu – 15h às 19h. Toda quarta-feira ele vinha até Nova Venécia e me substituía. Era uma grande atração da época. Depois chegou o Big-Beto, que também havia trabalhado na Tropical e Rádio Galáxia FM, de Coronel Fabriciano-MG. Ele era filho do saudoso maestro Gastão, da Lira Veneciana.

 

NO ESTÚDIO da Nova Onda FM nos anos 90: Kléber Cesana, João Batista Lopes, Néris José, Edivaldo Alves, Norito, Sabrini Narciso e Flavio Vidoto.

C9 – Esse Big-Beto uma vez parou a música e como a Nova Onda tinha uma janela panorâmica para a primeira ponte ele soltou: “neste momento está atravessando um burro sobre a ponte de Nova Venécia”. Parece que ele era divertido?
EA – Rsrs. Sim. Ele tinha uma voz incrível e era um cara muito alegre – até hoje. Apesar de ter perdido um de seus braços num acidente ele tinha uma habilidade impressionante com os discos e pick-ups – não existia computador naquela época. Big-Beto apresentava o programa da manhã, de 8 às 12 horas. O estúdio da Rádio Nova Onda ainda era no prédio do Rauta, no último andar, e tinha mesmo vista panorâmica para o Rio Cricaré.

 
C9 – Então ele deve ter ‘aprontado’ outras deliciosas histórias…
EA – Sim. Certa vez, numa de suas travessuras anunciou o “lançamento” do disco de David José [artista radicado em Nova Venécia] às 11h30. Tocou algumas músicas do recém-gravado LP do David durante todo o programa, até que chegou a hora. Big-Beto então anunciou o lançamento. Foi então à varanda do prédio e lá de cima lançou o disco que caiu próximo ao antigo trayller do Djalma, às margens do Rio Cricaré.

 
C9 – Havia um programa que fazia muito sucesso chamado ‘O Amor na Onda’, apresentado por você. Fale sobre.
EA – Espetacular. Lançamos até um livro com as poesias enviadas pelos ouvintes. O nome do programa foi sugerido pelo colega Alcimar Lopes e o lançamento do livro – diferentemente do lançamento do disco do David, foi idealizado por José Renato com show da extinta banda Laranja Mecânica no recém-inaugurado Ginásio de Esportes. (Nota da Redação – a inauguração ocorreu em março de 1988).

 
C9 – Nesta época também surgiu a Rádio Robusta FM?
EA – Sim. Apesar de ainda continuar por um tempo como sócio, José Renato deixou a Nova Onda e foi para a concorrente Robusta FM levando alguns locutores. Algumas pessoas assumiram a direção da Nova Onda e não permaneceram por muito tempo. Assim a rádio passou por momentos financeiros ruins para equilibrar as suas contas.

 
C9 – A tecnologia ajudou muito a evolução do rádio de lá para cá, não é?!
EA – Não tenho dúvida, as coisas mudaram muito. Não existia tanta tecnologia, por isso tínhamos de ser muito criativos. Usar máquina de datilografia para fazer a programação musical; separar os discos e fitas de propaganda. As gravações eram feitas em Tape de Rolo e as edições eram feitas cortando as fitas magnéticas e colando com fita adesiva para fazer montagens de comerciais e chamadas da rádio. As músicas eram disputadas com os divulgadores das gravadoras. Hoje é tudo mais fácil. Hoje o computador faz quase tudo.

 
C9 – E para manter tudo funcionando?
EA – A manutenção dos equipamentos era difícil e não existiam muitos técnicos. Lembro-me de um problema que existia no link da Nova Onda (aparelho que envia o som do estúdio para o transmissor). Quando esfriava ele gerava um ruído que parecia trovão no ar. Isso acontecia principalmente quando a rádio entrava no ar, às 4h da manhã.
Certa vez, num dia chuvoso, um dos sócios da emissora me ligou de madrugada para irmos até a torre, pois o ruído estava terrível. Depois de muito trabalho para subirmos o morro cheio de lama com sua Pampa vermelha chegamos finalmente na torre. Foi quando o sócio me pediu as chaves para entrarmos no transmissor e… fiquei sem saber o que dizer – havia esquecido as chaves lá embaixo. Imagine a cor que ele ficou! Depois dele falar cobras e lagartos e xingar muito tivemos que voltar e enfrentar todo aquele lamaçal num verdadeiro enduro para subirmos o morro novamente. Acho que foi por isso que ele, logo depois, deixou de ser sócio da Nova Onda.

 
C9 – E hoje, como você vê a rádio?
EA – Dos primeiros fundadores da Nova Onda sobrou apenas um que acabou vendendo a emissora para o senhor João Cremasco, atual proprietário. Antes de comprar a emissora, João Cremasco já apresentava um programa católico de cinco minutos na rádio e demonstrava interesse de apresentar um programa com horário mais abrangente. E foi o que ele fez. Mudou a programação da manhã e aumentou o horário do programa “Hora de Maria” de forma gradativa.
Contrariando alguns conselhos que havia recebido, João Cremasco investiu na emissora e comprou um transmissor de 10.000 Watts. A investida deu certo e a audiência explodiu! Recebia cartas de todas as cidades da região e não dava conta de atender. Eram caixas e mais caixas lotadas de carta. O senhor João Cremasco conseguiu colocar em ordem as finanças da emissora e torná-la uma grande referência no Estado.

 
C9 – E as demais?
EA – Depois disso várias rádios foram sendo inauguradas na região. Em Boa Esperança o senhor Altivo Fagundes estava montando uma e me fez um convite para administrá-la. Era a Transa Norte FM e já contava com alguns nomes conhecidos como Toninho Bill e o saudoso Toninho Petróleo. Era uma rádio modesta, funcionando com equipamento e local precários. Aceitei o desafio e conseguimos fazer da Transa Norte uma forte concorrente frente a Nova Onda, conseguindo bons índices de audiência, inclusive em Nova Venécia.
Depois que a Transa Norte FM foi adquirida pelos empresários Paulo Maestri e José Renato Ferrari ela mudou de nome e passou a se chamar Notícia FM. Fiquei por algum tempo na Notícia e retornei a Nova Venécia. Quase retornei à minha “velha casa” – Nova Onda FM. Foi quando recebi a proposta para acompanhar a instalação de uma nova emissora que em breve estará fazendo parte do dia-a-dia dos ouvintes da CIDADE.

 

EDIVALDO recebendo o cantor Biafra na Rádio Transa Norte FM, em Boa Esperança, em 2003.

C9 – Fale sobre esse novo veículo.
EA – Os empreendedores desta nova emissora são os antigos radialistas Januário de Oliveira e a pessoa que me enviou para Barra de São Francisco no início de minha carreira, Miguel Roldan. São pessoas extremamente competentes e que sabem o que fazem.
Vamos ter uma boa “briga” pela audiência em Nova Venécia. Tenho certeza que os ouvintes irão gostar. Pretendemos fazer uma emissora de qualidade, pois sabemos que não será fácil competir com a tradição que a Nova Onda tem. Ela criou e mudou hábitos e isso não se muda da noite para o dia. Merece o nosso respeito e reconhecimento. Mas, como diria um velho amigo comunicador do rádio: “guerra é guerra”!

 
C9 – E os estilos musicais que abarrotam as programações das FM’s. O que o senhor pensa a respeito?
EA – Os estilos musicais que são veiculados hoje nas emissoras são bem diferentes do que se tocava antes. Eu acredito que a popularização das emissoras de rádio e o fácil acesso à tecnologia contribuíram muito para isso. Antigamente, para se produzir uma música com boa qualidade técnica era muito difícil. A escolha do que iria tocar no rádio era feita com muito critério pelas gravadoras. Hoje, com um computador, um bom microfone, um pouco de talento e alguns plug-ins você já consegue montar um estúdio e gravar o que quiser.

 
C9 – O rock então errou?
EA – Não, apenas mudou e perdeu o controle de qualidade. A gente não consegue enxergar isso, estamos ficando velhos. O Rock perdeu espaço porque a crista da onda passou e veio o vale da tormenta – a tecnologia. Quem toca mais é mais lembrado. E tocar Rock In Roll não é para qualquer um que fica na frente do micro se “masturbando” com a tecnologia. Por isso que a Rádio Jovem Pan sucumbiu e se viu obrigada a tocar Sertanejo. Se não fizer isso, perde audiência e não fatura. Esta é a triste realidade dos nossos dias.

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