CRÍTICA CORREIO9 – Um jogo para quem sabe jogar

Eliana Maria Lemos


Estão abertas as inscrições para a 19ª edição do programa Big Brother Brasil da rede Globo. Para muitos admiradores do reality show, renovam-se as esperanças de ser um dos escolhidos para passar o próximo verão na casa mais vigiada do País. O sucesso da última edição provou, mais uma vez, que o programa está longe de acabar. É um sucesso garantido. Talvez motivado pelo “espírito fofoqueiro” do brasileiro que prefere se preocupar com quem pegou quem, do que com temas mais relevantes.

Entre os milhares de pré-candidatos a Big Brother 2019 está minha amiga Lucia. Fã incondicional do formato, ela já assinou o Payperview, por três anos, para não perder nada que acontecia na casa. De tanto espiar, agora quer ser espiada. Torço muito por ela, acredito sinceramente que seu tipo seria muito interessante para o programa, mas não acredito que ela vá agradar a produção do BBB. É povão demais! Tem cinquenta e poucos anos, pouca instrução, é homossexual assumida, daquelas que coçam o “saco imaginário”, uma “figuraça”, mas não tem o perfil dos participantes do programa, a maioria malhados, tatuados e descolados.

Nessas 18 edições do BBB, os participantes em sua maioria são sempre os mesmos tipos, só trocam de endereços. Profissionais liberais e estudantes formados. Gente bonita fisicamente, bem nascida, que não representa a maioria do povo brasileiro. E é aí que o programa perde. Faltam tipos populares, pessoas comuns.

Um pedreiro, um ambulante, uma diarista dariam, ao programa, um sopro novo, perspectivas reais sem necessidade de a produção ter que criar estratégias pra gerar conflito na casa. Sim meu caro leitor, caso você não percebeu, isso é feito sim.

O programa tem um roteiro a ser seguido assim como tem olheiros espalhados por grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, para encontrar candidatos para integrar o elenco do BBB. Nem todo mundo que vai pra a casa fez inscrição. É o caso do músico Marcos Viegas, que participou da última edição e, após ser eliminado, deixou escapar em algumas entrevistas que foi convidado por um produtor para entrar na casa. E o que o fez ser escolhido? Sem dúvida nenhuma o estilo pessoal “rastafári”.

Ao longo desses 18 anos, muita gente passou pela casa do Big Brother. Da maioria, ninguém nem se lembra mais. Entrou, curtiu, foi eliminada teve seus quinze minutos de fama, ganhou algum dinheiro e voltou a ser anônimo de novo. É um jogo para espertos. Em todas as fases, antes, durante e depois. Para os que se inscrevem, o vídeo de apresentação é tudo. Tem que ter algo pra despertar o interesse da produção que gosta de figuras polêmicas que admitem causar. Por que se não for assim, que graça tem? Nesse caso quanto pior, melhor. O conflito é o que movimenta a trama e bonzinhos não criam confusão, em resumo, não dão ibope.

Uma vez selecionado o participante tem que ser esperto o suficiente para permanecer no jogo sem bancar o vilão. Não pode se aliar a outros jogadores pra combinar votos em alguém. Já está provado que o público não perdoa esse tipo de comportamento. Todos os que fazem isso são eliminados. Então, o pulo do gato é ficar na sua aguardando que outros façam o jogo sujo. Nesse caso é imprescindível ser vidraça e não o estilingue. Pode reparar, em todas as edições só chegou a final quem virou o alvo dos outros jogadores.

Na saída da casa seja por eliminação ou com o grande prêmio o participante tem de continuar esperto para administrar bem a fama e os holofotes. Não basta só faturar nas primeiras semanas pós-confinamento. Tem que aproveitar as oportunidades e se manter interessante para a mídia, o que poucos fizeram até hoje.

Voltando a minha amiga Lúcia, perguntei qual era o objetivo dela ao querer ir para o BBB, se enrolou toda na resposta e no final disse que quer curtir a casa. Já começou mal, pensei. Devia ter me dito que queria o 1 milhão e meio de Reais.

* A autora é jornalista, roteirista, escritora, pesquisadora do Instituto Ipsos e articulista exclusiva do Jornal Correio9

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