CONTRAPONTO CORREIO9: Sinais de turbulência na primeira semana do governo Bolsonaro

Elias de Lemos (Correio9)


Análises conjunturais de política e economia não permitem afirmativas sobre o curso dos fatos. Nestes casos, a prudência sugere que tanto uma como a outra caminham em linhas de tendência. Não raro, fatos já consumados podem sofrer alterações e novas interpretações. Fato comum, também, é a não confirmação de previsões e planos, aparentemente, bem fundamentados e detalhados.

 

Nesta terça-feira, 8, o governo Bolsonaro completa a sua primeira semana. Foi uma semana de sinais do que pode vir pela frente. Na economia, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) entrou em euforia – com altas sucessivas – e o mercado cambial se mostra satisfeito diante do recuo da cotação do Dólar, frente ao Real.

 

Os comportamentos da Bolsa e do câmbio trazem sensação de alívio para boa parte da população. No entanto, é importante lembrar de que nenhum destes mercados trabalha com visão de médio ou longo prazo. Tanto um quanto o outro, leva em conta, apenas, a conjuntura econômica. Isto quer dizer que os mercados de ações e de moedas operam com as informações de que dispõem no momento, sem conjecturar os acontecimentos futuros.

 

Neste sentido, a alta da Bovespa e a queda do dólar, estão relacionadas às expectativas, em relação ao governo, com base naquilo que ele afirma hoje. O “mercado” não é estável, ele é bipolar. Se está se comportando assim, é porque está gostando do que está ouvindo do governo. Porém, o discurso não tem apresentado nenhum conteúdo estratégico para o país. Além disso, a primeira semana foi marcada por ‘confusões’ e ‘desmentidos’.

 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que a prioridade do governo é reformar o sistema previdenciário, insustentável do Brasil.

 

O mercado aplaudiu. A Bovespa disparou, atingiu um nível recorde e o Real se valorizou frente ao Dólar (com a queda da taxa cambial). Mas, na quinta e sexta-feira, o presidente semeou confusão em suas falas à imprensa.

 

Primeiro, disse que vai estabelecer uma idade mínima, para as aposentadorias, bem abaixo do que a discutida por sua equipe econômica, colocando em dúvida a expectativa de que ele vá abordar, com firmeza, a reforma da Previdência, que hoje consome um terço dos gastos públicos. Ela é necessária para que o governo consiga pagar os juros devidos anualmente, que consomem outros 43% do orçamento federal.

 

Posteriormente, o presidente expressou cautela ao responder se apoiará uma aliança bilionária entre a fabricante brasileira de aeronaves Embraer e a gigante americana Boeing, fazendo com que as ações da empresa brasileira despencassem.

 

Bolsonaro, também, falou de um aumento de impostos, contrariando uma promessa de campanha. Mas o seu ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, disse que o presidente havia se “equivocado”.

 

Existem, ainda, outras questões, que não foram totalmente explicadas pelos assessores de Bolsonaro, deixando a impressão de que existe uma lacuna entre as ambições do presidente e a equipe econômica à qual ele confiou a tarefa de resgatar a economia brasileira.

 

Bolsonaro, também, se mostrou favorável à instalação de uma base militar dos Estados Unidos no Brasil. Sua declaração contrariou, até mesmo, os generais que governam com ele.

 

Mas, na sua primeira entrevista após a posse, concedida na última quinta-feira, ao telejornal SBT Brasil, ele apresentou algo novo ao falar sobre o pente-fino que seu governo está fazendo na forma como o dinheiro público é gasto.

 

Trata se de um ‘ralo’ de dinheiro que é gasto com projetos com pouco, ou nenhum significado. Ele citou a contratação de uma consultoria, pelo Ministério do Turismo, para executar um projeto de viabilidade de abertura de uma representação do Ministério em outro país. A conclusão da consultoria – que custou R$ 3 milhões – foi pela inviabilidade da proposta.

 

Se o governo conseguir eliminar a sangria de gastos desta natureza, Bolsonaro poderá conseguir aquilo que nenhum governo fez até hoje: fazer o dinheiro do Brasil aparecer.

 

Afinal, é comum de se ouvir governantes falando em aumento de impostos (como ele mesmo falou) e de cortar gastos, mas até agora não se ouviu um presidente falando destas minúcias.

 

Se Bolsonaro fizer o dinheiro aparecer, aí, ele vai continuar contando com o apoio dos seus eleitores. Caso contrário, a frustração virá.

 

* O autor é economista, professor, jornalista e editor-chefe do Jornal Correio9

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