CONTRAPONTO CORREIO9 – Para Hartung, o céu parece ser o limite

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Elias de Lemos (Correio9)


O governador capixaba, Paulo César Hartung Gomes nasceu no dia 21 de abril de 1957, no município de Guaçuí, no Sul do Espírito Santo. Ele é casado com a psicanalista Cristina Gomes, com quem tem dois filhos, Gabriel e Júlia. Graduado em Economia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), hoje ele está com sessenta anos. Sua trajetória política começou no movimento estudantil, em 1979, quando ele tinha 22 anos.Quando era aluno da UFES, Hartung foi eleito o primeiro presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade.

No DCE, em 1979, foi um dos protagonistas do processo de reestruturação da União Nacional dos Estudantes, UNE, atuando na organização da bancada capixaba e no movimento de mobilização dos delegados para o congresso de reformulação da instituição, representativa dos estudantes brasileiros, que aconteceu na cidade de Salvador, a capital baiana.

No mesmo ano de 1979, Paulo Hartung filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro, PMDB, iniciando, deste modo, a sua trajetória político-partidária. Três anos depois, aos 25 anos, elegeu-se deputado estadual para um mandato de quatro anos (1983 a 1987), sendo o mais jovem parlamentar da Assembleia Legislativa do Espírito Santo.
Depois daquele primeiro mandato, reelegeu-se em 1986 permanecendo no cargo por mais quatro anos de 1987 a 1990, quando participou da Assembleia Estadual Constituinte. Como deputado, atuou na defesa dos interesses do funcionalismo público, e se dedicou a temas fundamentais relacionados ao Estado, como meio ambiente, saúde, educação e transporte público.

Em 1990, Paulo Hartung deu um salto de deputado estadual para deputado federal com a maior votação na capital do Estado. Com atuação de destaque no Congresso, acabou assumindo a vice-liderança do Partido da Social Democracia Brasileira, PSDB, na Câmara dos Deputados, cuja titularidade pertencia ao, então, deputado paulista, José Serra.

Em 1993, interrompeu o mandato de deputado federal para assumir a Prefeitura de Vitória, depois de se eleger prefeito da capital em 1992. Cumpriu o mandato de prefeito de 1993 a 1996, ano em que elegeu seu sucessor, Luiz Paulo Vellozo Lucas, também do PSDB, para quem transferiu o cargo no início de 1997. Em seguida, aceitou um convite da embaixada americana e viajou para os Estados Unidos, onde vivenciou uma experiência na área da Administração Pública e Sistema Político nos Estados Unidos.

Retornou ao Brasil em junho de 1997, quando foi nomeado pelo então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, para Diretoria de Desenvolvimento Regional e Social do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES. Em um ano BNDES viabilizou investimentos da ordem de R$ 1,4 bilhão de reais em projetos sociais.

Um ano depois, em 1998, venceu mais uma eleição, agora, para o Senado Federal.
Quatro anos mais tarde, em 2002, filiado ao Partido Socialista Brasileiro, PSB, Hartung foi eleito, no primeiro turno, para governar o Espírito Santo pela primeira vez. Em 2005 ele deixou o PSB e voltou às suas origens, no PMDB. Findo o mandato, reelegeu-se em 2006 com a maior votação percentual, para governador, no país. Em 2010, elegeu seu sucessor, Renato Casagrande e depois, encerrado o segundo mandato, ele voltou a atuar como economista.

Fechado o interregno de quatro anos, em 2014 Paulo Hartung elegeu-se novamente governador, em uma disputa com seu, ex-aliado, Renato Casagrande (PSB).
Hartung iniciou o terceiro mandato como governador do estado do Espírito Santo em 1º de janeiro de 2015, mas, se até então ele não enfrentara grandes adversidades, agora ele estancou os investimentos. E isso não agrada muito.

Eu conheci Paulo Hartung em 1996, quando ele foi paraninfo da minha turma de graduação do curso de Economia, da Faculdade de Ciências Econômicas de Colatina. Na época era tido como uma referência para os estudantes de Economia, aqui no Espírito Santo. Assisti ao seu governo na Prefeitura de Vitória, um governo dinâmico, bem semelhante ao programa realizador que ele desenvolveu em seus dois primeiros mandatos como governador.
O que mudou então? Como um político que venceu todas as eleições que disputou, que realizou investimentos e programas importantes, realiza, agora, um governo baseado na contenção de gastos?

Ele impôs um rígido controle das contas do Estado. Para isso, congelou investimentos, cortou reajustes salariais e – ao endurecer na negociação com a polícia – passou a ser chamado de ditador. Na prática, como ele disse na ocasião: “sequestraram a liberdade do capixaba e querem resgate”, foi o que aconteceu, mas Hartung não é homem de ceder a chantagens.

Ele conseguiu controlar as contas do Estado, evitando, assim, que o Espírito Santo caísse na situação de superendividamento e de insolvência que afeta a maioria dos entes da federação.

Para entender o governo Hartung é preciso enxergar o contexto em que a situação capixaba se desenrola. Feito isso não é possível criticar o governador; o Espírito Santo faz parte de um conjunto. Então é fundamental se ater ao “buraco” em que o Brasil se encontra. Alguns podem até “chorar” e reclamar das medidas de contenção, tomadas pelo governo, como um filho que quer um celular novo, mas, o pai não tem dinheiro para comprar.

O terceiro mandato de Hartung é um evento atípico. É algo incomum, pelo fato de ser observado pela imprensa nacional como um modelo a ser seguido. Visto de perto, o jeito Hartung de governar, agrada à mídia. E eis que surge a possibilidade de o governador capixaba alçar um voo nacional em uma chapa majoritária à Presidência da República. E isto não é um devaneio, é uma hipótese possível, se consideradas as razões porque ele chama tanto a atenção fora do Estado: Hartung é, hoje, o político que atende a todos os requisitos para um candidato à Presidência, não apenas a vice.

Ele é, reconhecidamente, um governante capaz e resoluto. É ficha limpa e conhece os fundamentos da crise econômica brasileira. Além disso, no governo do Espírito Santo, ele já provou que reconhece o caminho da crise antes que ela chegue. Tanto a mídia nacional, quanto o mercado, sabem disso. E são eles quem decidirão qual será o candidato ideal. Adiciona-se a isso, o vácuo de poder em que o Brasil se encontra, e aí, temos o espaço certo para Hartung.

Na contramão da maioria, ele, mesmo sendo do PMDB, não se alinha com o governo de Michel Temer. Ele desfila no cenário nacional com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM. Hartung construiu seu próprio caminho, enquanto Maia entrou na política através da carona do pai, o ex-prefeito do Rio de Janeiro, César Maia. Rodrigo Maia não tem sua reeleição garantida em 2018, muito pelo contrário, se confirmarem os prognósticos, ele fica sem mandato no ano que vem. Em outras palavras, Hartung precisa dele, mas ele precisa bem mais do prestígio que Hartung tem fora do Estado.

Hartung não deveria ter tomado as medidas que tomou? Como manter investimentos sem dinheiro? Como conceder reajustes sem dinheiro? Como liberar recursos para os municípios, quando não se tem dinheiro? O pai que nega o celular ao filho por falta de grana é ruim? Ele dialoga e explica ao filho as suas razões, mas o filho esperneia, então, ele diz não, e ponto final. Este pai é um ditador?

E se não fosse Hartung, se o governador fosse outro. Ele faria diferente? De onde iria tirar dinheiro? O remédio às vezes é amargo, mas é necessário. É importante entender o contexto em que estamos inseridos.

Hoje, a mídia nacional e o mercado não têm um candidato à Presidência da República. O PSDB não tem um nome, apesar de algumas especulações em torno do prefeito de São Paulo, João Dória. Mas, Dória é fichinha perto da experiência e astúcia do capixaba de Guaçuí. O PMDB, menos ainda. O PT está queimado e mesmo que o ex-presidente Lula venha a se candidatar, ele enfrentará a pior campanha política de sua história. Marina Silva é carta fora do baralho e Ciro Gomes pode se despontar, mas seu nome desperta calafrios no mercado. Já o ex-ministro Joaquim Barbosa reúne todas as condições morais para uma disputa presidencial, mas nesse caso, o problema é como construir uma plataforma política para um homem que não é político. E, além disso, quem se arriscaria a entregar um problema do tamanho do Brasil a um homem sem nenhuma experiência no assunto? Para governar o Brasil é preciso entender mais do que um assunto, e não basta ser honesto. Por fim, ainda existe o deputado federal Jair Bolsonaro, um político que fala claramente e se faz entender, mas, é radical ao extremo, não tem um projeto para o país e quando é confrontado, se enrola. Ademais, seu eleitorado é limitado ao grupo menos esclarecido e que defende a violência, problema que o brasileiro abomina.

Resta quem? Ninguém! E é nesse vácuo que pode emergir um nome novo no cenário político nacional.

É bem verdade que o Espírito Santo é um Estado com pouca expressão política, mas isso não está em questão agora. O que “todos” buscam é um candidato que possua ideias e que seja capaz de executá-las.

A crise fiscal do Estado não é de responsabilidade do governador capixaba, mas da política econômica que começou no governo de Dilma Rousseff e vem se agravando com a política econômica do governo de Michel Temer, que não tem a mínima capacidade de apoiar os estados da federação. E, felizmente, o governador capixaba percebeu isso, teve a responsabilidade exigida de um governante e a coragem de um imperador, e, tanto o mercado, quanto a mídia nacional têm conhecimento disso. Não é atoa que a imprensa apresenta Hartung como um modelo a ser seguido. Se ele deve ser seguido pelos demais, porque então não alçá-lo ao posto de presidente?

* O autor é professor de Economia, jornalista e editor-chefe do Correio9

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