Coluna exclusiva do Jornal Correio9 – Rotação (24/05/2018)

Por Elias de Lemos – eliasdelemos@correio9.com.br


Quem conhece quem?

Isabela Nardoni, menino João Hélio, menino Bernardo, menino Joaquim… Tem outros. A lista é grande. Segundo a Abrinq, são trinta crianças ou adolescentes assassinados por dia no Brasil. E mais recentemente, os meninos Kauã e Joaquim também entraram para as estatísticas da crueldade, da perversidade e da barbárie.

Com exceção do menino João Hélio que – depois de um assalto em que o carro de sua mãe foi levado – fora arrastado por sete quilômetros nas ruas de quatro bairros da região de Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, todos os demais assassinatos foram cometidos por pessoas próximas, de dentro de suas casas. Pessoas que deveriam protegê-las.

Além disso, estes crimes têm em comum, a frieza e a falta de emoção dos seus autores. Ao apresentar a conclusão das investigações na manhã desta quarta-feira, 23, a equipe responsável pelo inquérito, sobre as mortes dos irmãos em Linhares, aponta mais do que um duplo homicídio. A descrição é de um ritual de atrocidades.

Exames identificaram a presença de uma substância denominada PSA, nos orifícios anais dos meninos. O material é encontrado no sêmen humano. Esta constatação, supostamente, dá início ao calvário dos dois irmãos na noite do dia 21 de abril de 2018.

Primeiro o pastor George Alves, pai de Joaquim e padrasto de Kauã, teria estuprado as crianças. Em seguida, precisava de “arrumar” um jeito de se livrar dos vestígios.

Vizinhos relataram ter ouvido gritos e choros dos meninos, pouco antes do incêndio. A investigação concluiu que ele os teria espancado com o objetivo de “desacordá-los” a fim de evitar “resistências” quando o incêndio começasse. Depois disso ele os teria levado para o quarto, colocado nas camas, e, em seguida, ateado fogo no lugar.

O incêndio ocorreu por volta das duas horas da manhã, e, segundo os vizinhos, ele parecia desesperado, mas não buscava por socorro. Isso só aconteceu quando as testemunhas chegaram em frente à “casa do horror”.

A “maldade humana” nos é um termo muito comum, muito presente. A maldade, inclusive, é representada com figuras antropomórficas, como demônios, seres das profundezas, animais perigosos.

Vemos a maldade tratada na Literatura milenar como serpente, lobo, dragão, anjo decaído, alma cruel separada do corpo. Aprendemos a tratar o mal como uma realidade, como algo realmente existindo no universo, como se fosse uma gosma turva, como se fosse algo. Problema todo reside num simples fato: a maldade não existe enquanto ente real, uma coisa verdadeira. Nem anjo, nem demônio, nem serpente, nem gosma turva. A maldade não existe como ser real.

Quando não compreendemos cientificamente uma realidade, apelamos para a suposição, que no fim é, também, uma formulação da nossa criação, mas buscamos tratar uma mínima relação com a realidade. Seja por religião, por entretenimento ou qualquer elemento de fundo criativo, o ser inexistente ganha vida através da fantasia humana.

E é aqui que quero chegar. O intelecto humano é capaz de, por oposição a algo que realmente exista, gerar novos conceitos. Isso é a produção por negação. Quando pensamos, por exemplo, no escuro, ele nada mais é do que a ausência de luz. Só fica escuro quando o Sol se esconde no horizonte, quando estrelas estão encobertas ou, no caso de um ambiente iluminado artificialmente, quando se apagam essas fontes de luz. O escuro, de fato, não é uma realidade, mas ausência de luz; assim como a feiura é a ausência de beleza. O mesmo ocorre com o frio, que não existe, somente passa a existir, em caráter intelectual, quando o compreendemos como ausência de calor.

Na História humana, em seus quase duzentos mil anos, podemos e devemos entender pontos de relevância como bússola, tendo sempre conosco o máximo diferencial entre nossa espécie e as demais: o intelecto como ferramenta da autopreservação.

E o instinto de autopreservação leva a atrocidades. Um dos maiores problemas da nossa época é a dificuldade de compreensão das pulsões sexuais. A maioria das pessoas não consegue entendê-las. Com isso, buscam repreendê-las. E aí, mora um perigo muito grande. Ameaçador.

Ao se decidir a mudar de vida e se dedicar a uma igreja, da qual se tornou pastor, George Alves confirmou o que Marx escreveu há mais de duzentos anos: “A religião é o ópio do povo”. Ele não mudou de vida, apenas trocou um vício por outro. Só que um vício aceito, portanto, um vício pior. Talvez, fosse melhor se ele tivesse procurado um analista.

George nunca foi pastor, nunca foi religioso. Apenas falou o que os fiéis incautos queriam ouvir, como tantos pastores fazem todos os dias, e são seguidos. O que ele buscou foi um modo de viver “em paz”. No entanto, se descuidou dos demônios existentes dentro dele.

 

“Este caso deixa a todos estarrecidos pela monstruosidade e crueldade. As investigações e os laudos periciais produzidos são esclarecedores, são definitivos e inegáveis”. (Secretário de Estado Segurança, coronel Nylton Rodrigues, sobre pastor indiciado pela morte das crianças)

 

21 de abril – Quarto das crianças pega fogo

O quarto onde Joaquim e Kauã dormiam pega fogo por volta das duas horas da madrugada. Quando os bombeiros chegam ao local, as duas crianças já estão sem vida. O pastor George Alves, pai de Joaquim e padrasto de Kauã, estava em outro quarto da casa.
A mãe das crianças, Juliana Salles, estava em um congresso em Minas Gerais com o filho mais novo do casal. Por falta de legistas no Serviço Médico Legal de Linhares, os corpos são levados para Vitória.

Coronel Ferrari, do Corpo de Bombeiros, diz que uma das hipóteses era falha em equipamento elétrico.

22 de abril – Pastor celebra culto após mortes

George Alves comandou um culto da Igreja Batista Vida e Paz, da qual participa. O casal de pastores recebe abraços de conforto dos fiéis.

28 de abril – Pastor é preso

Mandado de prisão temporária, de 30 dias, é expedido pelo juiz Grécio Grégio contra o pastor. Autoridades informam que o pastor atrapalhava as investigações. George é levado para a Penitenciária Regional de Linhares. A mãe das crianças afirma que já esperava pela prisão do marido por conta da linha de investigação da polícia;

08 de maio – Pastor não vai a enterro de filho e enteado

Uma das advogadas do pastor George Alves informa que a defesa não vai pedir autorização da Justiça para que ele saia da prisão para o enterro do filho e do enteado, por questão de segurança. A advogada também fala que a pastora Juliana Salles, mãe das crianças, tem intenção de pedir escolta policial para acompanhar o enterro;

09 de maio – Corpos são levados para Linhares

A pastora Juliana Salles consegue autorização da Polícia Militar para ter escolta policial durante o enterro dos filhos. Os corpos dos meninos são buscados pelo veículo de uma funerária à noite, no Departamento Médico Legal (DML) de Vitória, e levados para Linhares.

10 de maio – Corpos são enterrados 

Os corpos dos irmãos Joaquim e Kauã são enterrados às 9 horas, no Cemitério São José, em Linhares.

23 de maio – Indiciação

Pastor é indiciado por duplo homicídio triplamente qualificado e duplo estupro de vulnerável.

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