Coluna exclusiva do Jornal Correio9 – Rotação (17/05/2018)

Por Elias de Lemos – eliasdelemos@correio9.com.br


Não é o que estão dizendo

No último sábado, dia 12, o governo do presidente Michel Temer (MDB) completou dois anos. Em seu discurso durante a comemoração, na terça-feira, 15, o presidente destacou as ações tomadas na sua gestão e disse que “tirou o Brasil do vermelho”.

Ao abrir o evento, chamado de “Maio/2016 – Maio/2018: O Brasil voltou”, Temer disse que faria uma lista “talvez extensa” das ações do governo. Ao longo do discurso, Temer defendeu as reformas feitas, como a trabalhista, a do ensino médio e a emenda constitucional que estabeleceu o teto de gastos públicos.

Ele falou, também, da Reforma da Previdência, que chegou a ser enviada, pelo governo, ao Congresso, sem avançar. Disse que ela saiu da pauta legislativa, mas continua na pauta do país: “Se engana quem pensa que a reforma da Previdência não será realizada. Ela saiu da pauta legislativa, mas, não saiu da pauta política do país”, disse o presidente.

A uma plateia formada por ministros e ex-ministros do governo, além de dirigentes de estatais, de autarquias federais e parlamentares aliados, Temer falou que o país está no rumo certo: “Nós somos responsáveis e orgulhosos por tirar o país da maior recessão da sua história. Por assumir um governo com inflação acima dos 10% e colocá-la perto dos 3% […] Todos nós fomos responsáveis por tirar o Brasil do vermelho e colocar o país no rumo certo”, completou Temer.

No entanto, o presidente excluiu, de sua fala, alguns números da economia brasileira. Ele não falou de desemprego, preferiu falar da geração de novos postos de trabalho. Para isso, citou dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) que apontam geração de 70 mil postos de trabalho com carteira assinada nos três primeiros meses de 2018.

Já o nível de emprego que caiu 1,7% no primeiro trimestre, ficou fora do discurso. No trimestre encerrado em março deste ano, segundo o IBGE, a população ocupada no país ficou em 90,6 milhões, menos que os registros do trimestre encerrado em dezembro de 2017 (92,1 milhões). Segundo o instituto, o número de ocupados é o menor desde julho, quando também ficou em 90,6 milhões.

Quando assumiu em 2016 o Brasil tinha 12 milhões de desempregados; em março de 2018 este número chegou a 13,7 milhões.

O presidente usou as informações de 2017 para afirmar que “tirou o país da recessão”. No ano passado, a economia cresceu 1%, puxada pelo bom desempenho do agronegócio, no primeiro trimestre. Em todo o ano, a taxa ficou acima de zero, sendo 0,2 no segundo trimestre e 0,1% nos dois últimos. Mas, ele não fez referência à queda de 0,13% do PIB, durante o primeiro trimestre, encerrado em março, 2018.

Temer evitou, também, falar do estouro das contas públicas em março, quando registrou déficit de R$ 25 bilhões.

Por fim, não fez nenhuma menção à Operação Lava Jato, bem diferente do seu discurso de posse, quando defendeu a operação.

 

A otimista

MIRIAN LEITÃO alegou desconhecimento do problema da Dívida Pública.

A jornalista Miriam Leitão que, há quatro décadas, atua na área econômica, participou do evento “RioMar com Mercado” com a palestra Perspectivas Econômicas do Brasil para 2018.
Ela falou durante quase duas horas para uma plateia atenta. A frase seguinte resume bem o discurso da palestra: “Os problemas do Brasil são imensos. Mas as minhas viagens por aí mostraram que existe, sim, solução. São pessoas comuns lutando para solucionar seus problemas. Pessoas com esperança. Quando ouvi suas histórias, vi o quanto sou pessimista. Mas existem muitos brasileiros lutando para solucionar nossos problemas”.
Miriam falou com otimismo: “A economia melhorou. O País está saindo da recessão. A previsão de crescimento para este ano é de 3%. Mas o que mais incomoda é o desemprego. São 12,68 milhões de desempregados (na verdade, segundo o IBGE, são 13,7 milhões). Um número que ainda assusta”, explicou.

 

Não entende

Miriam Leitão criticou as taxas de juros brasileiras. “Representam um problema para o crescimento do País. “Não sei explicar essas taxas. E olhe que já estudei muito sobre isso”, disse.

Como tem feito em suas colunas em jornais de grande circulação no Brasil, a palestrante apresentou uma “ideia” de esperança para o país. Usando exemplos reais, da pesquisa que realizou para escrever o livro “História do Futuro”, ela empolgou a plateia de mais de 600 pessoas.

Miriam não falou como uma analista econômica. Ao usar exemplos de trabalhadores e pessoas comuns, para ilustrar o seu otimismo, ela negligenciou os fundamentos políticos e econômicos como condições de crescimento e desenvolvimento.

Ela disse não entender as taxas de juros praticadas pelos bancos no Brasil, revelando ignorância sobre os componentes das taxas. As taxas de juros bancárias têm vários componentes, entre eles a oferta de dinheiro. E a maior parte do dinheiro disponível para empréstimos no Brasil é emprestada ao governo para rolagem da Dívida Pública, que só aumenta.

As taxas de juros estão na origem do problema econômico brasileiro: a Dívida Pública. É a rolagem da Dívida que consome todo o dinheiro da nação.

 

Errou feio

Em 2017, falando das reformas realizadas na Argentina, Miriam Leitão fez previsões otimistas para o país. “A economia da Argentina está em recuperação e pode crescer 3% este ano e 4% no ano que vem. Isso explica em parte a vitória do presidente Mauricio Macri nas eleições do último final de semana. O ajuste promovido pelo governo já traz resultados concretos que começam a ser percebidos pela população. A recuperação do Brasil também tem ajudado, pelas fortes relações comerciais entre os dois países”, escreveu.

Em março, a Argentina, divulgou taxa de crescimento de 2,9% em 2017. Agora, todas as previsões apontam para 3% em 2018.

No início deste mês a Argentina voltou a pedir dinheiro ao FMI, sob o risco de um calote geral, como fizera em 2001.

“Não é porque o desemprego aumentou. É que o desempregado, quando a economia começa a melhorar, ele, que estava desalentado, portanto não procurava emprego, ele se transforma num alentado, ele vai procurar emprego”.
(Presidente Michel Temer, explicando o aumento do desemprego)

 

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