Editorial: A eleição da polarização

A corrida eleitoral está iniciada. Os principais nomes estão definidos para as disputas que envolvem os cargos de deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República. Daqui para frente promete ser agitado para o cenário político brasileiro, com impactos muito concretos para a população, principalmente para suas parcelas mais vulneráveis e dependentes de serviços públicos.

No dia 07 de outubro, acontecerá o 1º turno das eleições. Serão eleitos um presidente, 27 governadores, 54* senadores (2 para cada estado), 513 deputados federais (10 representando o Estado do Espírito Santo) e 1060 deputados estaduais (30 representando o Espírito Santo). Entre os nomes venecianos e outros que têm profundas raízes aqui, dez candidatos estão concorrendo para deputado estadual.

Seis candidatos concorrem ao Governo do Espírito Santo, e catorze estão na disputa presidencial. Será a eleição mais indecifrável da história brasileira. Uma eleição que, para muitos, será o início da mudança desejada pelo Brasil. Será sem dúvida, uma eleição para a mudança. Mas, qual mudança? Esta pergunta não tem resposta. Mas, vai receber muitas promessas de resposta.

A única certeza, para estas eleições, é de que será a eleição da polarização. Esta polarização pode ser percebida nas redes sociais, em ‘memes’, vídeos editados, conversas fora de contexto, mistura de assuntos desnecessários, e nas conversas de bares e que acaba sendo alimentada pela grande mídia.

Existe a crença de que há um mal a ser extirpado e que a eleição vai abrir a porta para a erradicação de todos os males. O que mais preocupa, segundo as pesquisas, é a corrupção. Existe, ainda, a crença de que a corrupção é um mal recente, produzida por determinado grupo, e que este grupo não deve ser tolerado.

Existe também a crença de que a lei é a instância maior e que a Justiça é a sua guardiã-imaculada.

Porém, o brasileiro não é acostumado a investigar as fontes de suas informações, mas, por outro lado, gosta de ser o primeiro, a saber, e, principalmente, o primeiro a espalhar o que fica sabendo. Outro porém, é que o brasileiro não foi treinado para o debate democrático.
A polarização, entre o bem e o mal, não se materializa apenas em posições políticas mais radicais, mas, pode ser verificada, também, em ações mais extremas, com um potencial elevadíssimo de disseminar ódio e incitar a violência.

Diversos fatores vêm contribuindo com o agravamento desta situação. Ela começa pelo desencantamento com a política, devido a frequentes e generalizadas denúncias de corrupção e prisões, e a proliferação de muros visíveis e invisíveis que impedem o encontro com a diferença. Muitas pessoas defendem este desencontro, desagregando a sociedade.
A polarização destes radicalismos passa, também, pela crise econômica, que aumenta o ressentimento dos pobres em relação aos ricos e, também, dos ricos em relação aos pobres.

A polarização fecha o espaço para o debate político, porque todos os lados se apropriam de suas opiniões, como se elas fossem a última expressão da verdade. Tratam suas “opiniões”, como verdades absolutas; ao mesmo tempo em que tratam as ideias alheias como delírio ou ignorância política. Poucos estão dispostos a relativizá-las.

Assim, cresce o peso de votos de setores que antes da polarização votariam de forma mais heterogênea, de acordo com posicionamentos políticos e não de identidades, mas agora votam como grupo, sem independência de pensamento. É o caso, por exemplo, de evangélicos, que somam quase um terço da população e tendem a votar em candidatos de direita e de movimentos de direitos humanos, que tendem a votar em candidatos de esquerda.

Este contexto favorece a disseminação do cenário de radicalização, através do uso das fake news. Elas permitem lançar mão de exageros e até mesmo informações deliberadamente falsas ou, até mesmo, criminosas para deslegitimar o outro lado.

Neste contexto, surge a necessidade ainda maior da checagem de fatos, da checagem de discursos e promessas de políticos nesta época das eleições.

A eleição de representantes, como o governador e o presidente, não é somente dele, mas de um posicionamento político, de um ideal.

Esse posicionamento não é necessariamente partidário, mas está sujeito à formação de alianças, que irão determinar os nomes que assumirão os principais escalões do governo e, até mesmo quais secretarias e ministérios existirão.

Além disso, cabe ao presidente eleito gerir sobre a continuidade, a operacionalização e a atribuição de recursos, projetos, programas sociais e de desenvolvimento.

Do mesmo modo, a escolha dos membros do Legislativo tem grandes impactos sobre a vida da população, pois são eles que propõem, aprovam ou vetam leis que podem impactar, e muito, a população, principalmente, de moradores de regiões mais pobres. Foi o caso no ano passado da aprovação da Lei da Regularização Fundiária, que permitirá a titulação, e, portanto, a cobrança de imposto, a, polêmica, reforma da previdência e a flexibilização do estatuto do desarmamento, ainda em tramitação.

* São 81 senadores, 3 por estado; o tempo de mandato de um senador é de 8 anos. Em uma eleição renova-se 1/3 das cadeiras e, na seguinte, os outros 2/3. Assim, nas últimas eleições, em 2014, foram eleitos 27 (1 por estado) e nesta serão eleitos 54 (2 por estado).

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